Por Victoria Swinka Boehm
Setembro amarelo, um mês dedicado à saúde mental. Dentro desse tema o que tem ganho cada vez mais espaço nas discussões é a saúde mental no trabalho, o que pode acabar levantando mais dúvidas que respostas.
A Organização Mundial da Saúde já reconheceu que o trabalho pode ser uma ferramenta aliada na proteção à saúde mental, mas também, é capaz de agrava-lá. Estima-se que globalmente cerca de 12 bilhões de dias de trabalho são perdidos anualmente devido à depressão e ansiedade, com um custo de quase US$ 1 trilhão. No Brasil, esse cenário afeta diretamente a competitividade, agravando problemas como alta rotatividade no quadro funcional e a elevação dos custos com planos de saúde, o que poderia ser dinheiro usado para prevenção, acaba sendo usado para tratar as consequências do adoecimento dos funcionários.
Os dados do Ministério da Previdência Social evidenciam um aumento dos benefícios concedidos por transtornos mentais e comportamentais, de 209.124 em 2022, em novembro de 2025 já estavam em 393.670, entre as doenças, transtornos ansiosos, depressão e burnout são as principais causas do afastamento.
A legislação por si só não é capaz de resolver essa situação. Pesquisas conduzidas pela Universidade de Stanford (2022) indicam que líderes com gestão tóxica aumentam em 60% a probabilidade de seus colaboradores desenvolverem problemas de saúde, e levam 77% dos profissionais a considerar a troca de emprego. Gestores tóxicos no trabalho são o principal inimigo no ambiente saudável e produtivo de trabalho.
Ambientes de trabalho marcados por metas excessivas, comunicação autoritária, ausência de reconhecimento profissional e lideranças despreparadas constituem um terreno fértil para o adoecimento psíquico dos trabalhadores. Culturas organizacionais que priorizam resultados ignoram possíveis situações de assédio. A sobrecarga de trabalho, a vigilância excessiva, a baixa autonomia e a estigmatização do sofrimento psíquico intensificam quadros de burnout, ansiedade e exaustão emocional, sendo certo que o burnout, em grande parte, é decorrência direta de um trabalho mal gerenciado, e não da fragilidade individual do empregado. Gestores tóxicos geralmente despontam como o problema central da qualidade do ambiente, pois ao transformar o cotidiano laboral em fonte permanente de humilhação, manipulação e medo, contaminam todo o clima organizacional. A saúde dos empregados é um reflexo da própria organização: empresas que toleram práticas abusivas propagam o adoecimento, rotatividade e a perda de produtividade.
Uma vez identificadas essas situações, para que elas possam ser revertidas é indispensável que as empresas compreendam como está sua cultura organizacional e identifiquem as formas pelas quais ela pode ser aprimorada, a exemplo, investigação de motivos por trás de demissões frequentes. Isso passa pela promoção de uma comunicação transparente e empática entre líderes e equipes, pelo reconhecimento das conquistas individuais e coletivas, pelo estímulo à cooperação e ao sentimento de pertencimento, pela concessão de autonomia adequada e pela garantia de equilíbrio entre vida pessoal e profissional. A construção de um clima organizacional positivo exige, ainda, que a liderança seja exercida com escuta ativa e sensibilidade, de modo que os trabalhadores se sintam acolhidos e seguros para expressar dificuldades sem receio de retaliação. Organizações que incorporam a saúde mental como valor institucional e investem em políticas de suporte emocional colhem resultados concretos: menor rotatividade, maior engajamento e ambientes verdadeiramente produtivos. No fim do dia, indenização não é prevenção, é apenas a monetização de um problema que poderia ter sido evitado com gestão adequada.
Por este motivo é imprescindível que as empresas disponibilizem periodicamente cursos e treinamentos voltados a temas como assédio moral e sexual e comunicação não violenta. Da mesma forma, o treinamento de liderança deve ser compreendido como medida preventiva, e não apenas como ferramenta de desenvolvimento comportamental, pois líderes capacitados e com empatia são a melhor ferramenta contra a formação de ambientes tóxicos. A existência de mecanismos internos de escuta e apuração possibilita que a empresa atue de forma preventiva, corrigindo distorções antes que se convertam em adoecimento generalizado. Dessa maneira, a empresa demonstra compromisso real com a saúde mental de seus colaboradores e assegura que eventuais prejuízos psíquicos não decorram de omissão institucional, mas de circunstâncias alheias ao ambiente laboral que proporcionou.
Assim, quando falamos em saúde mental no trabalho precisamos falar de gestão inteligente. Empresas que tratam o bem-estar psíquico como pilar estratégico e como responsabilidade, afinal, ninguém merece, e nem deve, se sentir invisível.
REFERÊNCIAS
FUNDAÇÃO GETULIO VARGAS. Saúde mental no trabalho: organizações estão no caminho certo. FGV Educação Executiva In Company, [s.l.], [s.d.]. Disponível em: https://educacao-executiva-in-company.fgv.br/insights/artigos/saude-mental-no-trabalho-organizacoes-estao-no-caminho-certo. Acesso em: 19 set. 2026.
SANTOS, P. M.; MATOS, F. R. Cultura organizacional e saúde mental no trabalho: uma revisão integrativa. Revista Laborativa, Assis, v. 15, n. 1, p. 8-30, abr. 2026. Disponível em: http://ojs.unesp.br/indexphp/rlaborativa. Acesso em: 19 set. 2026.
WORLD HEALTH ORGANIZATION. Mental health at work. Geneva, 15 set. 2026. Disponível em: https://www.who.int/news-room/fact-sheets/detail/mental-health-at-work. Acesso em: 19 set. 2026.
